UM ANJO NA TERRA

 

O rapaz vivia momentos de incerteza. Estava saindo de um relacionamento tumultuado quando, de repente, resolveu cumprimentar uma mulher jovem, bonita, que lhe pareceu extremamente receptiva à primeira vista. Aquilo que havia sido um ato de cortesia, quase uma coisa mecânica, começou a lhe tocar e a causar algumas interrogações sobre o porquê daquela sua atitude, em um momento de tanto aflição pela qual estava passando.

Claro que, em outras circunstâncias, seria absolutamente normal. Todavia, naquele dia, depois de ter tomado decisões importantes em sua vida, o mais correto, na sua maneira de ser, era mostrar-se retraído, circunspecto, não conseguindo, sequer, visualizar alguma pessoa que cruzasse o seu caminho.

A partir daquele despropositado cumprimento e da sua inesperada correspondência, algo aparentava ter mudado internamente no seu íntimo. Parecia viver duas vidas paralelas: uma, a que havia lhe causado tantas preocupações, mal-estar e o deixara muito machucado, e que estava muito latente ainda; outra, que parecia começar, irradiada de simpatia e ternura daquela jovem sorridente.

Como explicar? Nem ele mesmo sabia ou podia tirar uma conclusão naquele momento, entretanto, era algo de bom, de novo e que lhe estava fazendo um grande bem.

Desse cumprimento surgiu uma conversa agradável e suave que mostrou a necessidade de novos cumprimentos, novos encontros, novos diálogos. A troca de palavras, inicialmente sobre coisas triviais, identificações, descobertas, aos poucos foi levando o seu sentido para o bem-estar, a importância de se falarem, de sentirem uma proximidade maior, enfim, de estarem juntos por alguns momentos, todos os dias.

As ligações telefônicas se sucediam e, a cada uma delas havia lapsos de silêncio de um dos lados, como se para absorver o conteúdo da voz e do que ocorria no pensamento um do outro. O tempo parecia não passar para eles, mesmo imaginando o quanto poderia lhes custar financeiramente tudo isso.

Aos poucos, o moço foi percebendo que estava falando com alguém especial. Em alguns momentos, entretanto, passava-lhe pela cabeça que aquela jovem era fruto tão somente de uma educação refinada, muito tolerante e que estava apenas a lhe dar atenção pelos problemas que enfrentava. Porém, com o decorrer do tempo, foi percebendo que ela também tinha as suas dificuldades e sempre conseguia encará-las com otimismo e com uma força vital impressionante.

Os encontros se sucediam diariamente e a jovem passou a mostrar que além de tolerante, irradiava uma meiguice, uma ternura inigualável. Fazia bem a quem saía de uma grande crise, como também para quem estava em busca de uma companhia ideal, cheia de vida, muita compreensão e carinho.

Ao término de cada encontro, o rapaz procurava prolongar, no silêncio da noite, em sua cama, os momentos de encantamento que acabara de desfrutar. Algumas vezes ele se lembrava que havia deixado de dizer algo que sentira mas, haveria o amanhã, o outro dia para relatar e complementar tudo quando desejara dizer.

Novos encontros continuaram a ocorrer. Era um misto de ternura, compreensão, parceria, troca dos acontecimentos do dia. Por mais cansado que estivesse, a cada palavra da jovem, ele parecia relaxar, recuperar as forças e a alegria de viver. Muitas vezes, isso acontecia ao custo do sacrifício dela, que deixava de cumprir com os seus afazeres domésticos e saía em busca de irradiar alegria e felicidade ao seu novo companheiro.

Vez ou outra o moço se preocupava em saber se algo afetava o emocional da jovem, que demonstrava viver aqueles momentos exclusivamente para ele. Quando, por acaso conseguia captar alguma coisa que a deixava preocupada, claro que ele se sentia arrependido, culpado e egoísta, por estar cobrando tanto e dando tão pouco. No seu entendimento passava a sensação de que ela, como um ser quase perfeito, poderia sublimar os seus problemas, priorizando os alheios, como a jovem estava a fazer em seu benefício.

De repente, em uma das meditações em sua cama, passou pela cabeça do rapaz que ela não era simplesmente uma moça bela e tolerante, mas sim, um anjo que foi colocado na terra e em sua vida. Somente os anjos poderiam ser tão meigos, tão carinhosos, ternos e doces. Alguém mais poderia ouvir as lamúrias de outra pessoa, com um sorriso nos lábios e, em poucas palavras, fazer com que tudo de ruim que se passava ficasse tão pequeno, tão sem significado, permitindo que ele ingressasse em um mundo mais colorido, sem traumas e sem aborrecimentos?

Mas se era um anjo, por que ela também tinha os seus momentos de dor e de tristeza? Provavelmente Deus a tenha feito perfeita no Céu, contudo, ela, ao optar por habitar a terra, tenha recebido também as atribulações dos humanos. Todavia, se tinha esses tormentos, também possuía o dom de transformar os dos outros em felicidade, através do seu enlevo e do seu permanente afeto.

As noites em que o rapaz passava a meditar foram se tornando leves, a ponto de entrar em total sintonia com a jovem, como se pudessem se falar de verdade. Interessante é que, quando voltavam a se encontrar, como em repetição, tudo era dito conforme havia imaginado, ou seja, repetido da maneira como havia vivenciado na noite anterior.

Com o passar do tempo, nas suas noites, já não se falavam à distância. O moço parecia não estar mais só. Na leveza dos seus pensamentos e desejos, o anjo, como ser especial que é, ali estava ao seu lado, um leve sorriso nos lábios, a acariciá-lo enquanto o ouvia e lhe passava palavras de conforto e confiança. Assim ele adormecia, desfrutando de sonhos acalentadores e cheios de doçura.

Ao acordar, relaxado, sentia que a sua vida tinha tomado um outro rumo, um caminho seguro e pleno de esperanças. No entanto, ao olhar a sua cama, percebia a falta daquela que lhe deu o aconchego da noite e embalou o seu sono. Já não sentia o calor das suas mãos, o perfume do seu corpo e a suavidade da sua voz. Se por um lado acordava cheio de confiança e esperança de um dia bom, faltava, no seu dia-a-dia, a presença física, amorosa e bela daquele anjo cheio de ternura.

A expectativa do rapaz é de que, em um dia que não esteja distante, Deus resolva deixar esse anjo viver para sempre em sua companhia, transformando-a em um ser humano normal, permitindo-lhes o convívio harmonioso como dois seres que se amam, mantendo com ela, contudo, os mesmos dotes de meiguice, ternura e carinho, razão maior da daquele amor que passaria a ser eterno enquanto durar a vida e o encantamento daquele primeiro encontro.


(Hugo Hereda)



 

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