Nestas horas mortas em que a dor das madrugadas
Se arrasta nas calçadas em que deixo minhas pegadas,
Eu penso que a vida é como um barco n'água,
Uma roda de moinho, roda mansa e trágica,
Onde giram sonhos num turbilhão de mágoas.
À deriva, na imensidão da noite negra,
Quando tudo é apenas luz de lamparina
Sonho com os olhos doces da menina
E me envergonho dos lugares em que vivo,
Das esquinas em que habito, do mundo que criei
Para fugir daquela a quem eu tanto amei!
Por um segundo minha alma é cantilena,
E me convenço de que tudo vale a pena
Mesmo sem tê-la amado ou possuído;
E pago pelo amor que posso ter,
Adormecido nos braços de alguém que não conheço
Na hora extrema que me traz o amanhecer.